Alive And Well

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He’s poison.

It’s fine, leave it be. It has to rest sometime.

That’s true about most things that move. It’s true about men and beasts. It’s true about the air. It too can move of course. It can form strong winds, winds that blow and blowing these winds can catch many things off-guard. Rocks and trees and flowers and objects of all shapes and sizes. If rocks could talk it’s quite possible they would be upset about being caught off-guard. Parar é morrer, pedra estúpida!

The air puts many things in motion. It puts in motion things that spring other things, but also many fires and those are not nearly as enthusiastic about any little thing. Men and beasts – those can be very little to a big fire. And it was a big fire and its slow walk the three men now witnessed.

I still think we should leave, cried the smaller of the three.

Look at you. So thin and tiny. I’m sure you could fool the fire, said the bigger man. You’ve been fooling around for a living. What’s stopping you now?

Shut up! Can’t you see? It’s been alive for far too long.

Whatever. Fires can do a lot of good. And so can a bottle of wine now that I think about it.

The hell is that supposed to mean?

That some things should burn! Oh, and that I’m thirsty. All in all, I’m just aching for that burn, you understand?

Yeah, well, it’s not like you can choose.

You got that right. Arlen, hand me the port over there. Don’t want to be late taking my meds. Skipping that last dose can kill ya, haven’t you been listening?

We gotta do something!

It has to rest, damn it! Haven’t you been listening? Arlen, the port!

The flames spread across the pine and up the hill where the men stood looking. They spread at the speed of a beating heart in distress, pulsating, getting stronger. The fire expanded feeding on the pine and the long dead flowers once given to long dead humans in distress and, approaching, this fire left a trail like that of a snake in casual pursuit of newly found prey. The fire expanded and exploded. Fire spat fire and the hill blazed. The small man allowed his cheeks to burn and ran, his shadow making him seem the biggest he had ever been. A big target. An easy and ungainly one. A fool no longer, but something else and something worse. Ashes from dead flowers blessed his passing; ashes from the man stained the wine. The big drunk lost hope and waited for the fire to rest, he waited and he lost hope.

ARLEN!

Fires don’t tire after all, Arlen said at last. But the more tired we get the quicker we’ll be allowed to rest. Let us run, I say. I would rather die on an empty stomach, than remain here feeding on the zombies of the world.

Thus a drunkard went up in flames. Thus a runner was caught by a fire. The blazes shrunk and became an ember. To the small black tree it would retire.

Fire doesn’t rest; it waits.

 

Lisboa, 29. August. 2017.
Nuno M. Monteiro Ramos

Viver Aqui

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Viver às largas.

Ia à praia quando fazia frio. Vislumbrava as estrelas à luz do sol.  No dia mais chuvoso do ano sentou-se no banco do jardim. Estava lá outro tipo.

Que coisa é esta afinal, perguntou ele baixinho e de testa franzida. Nem chapéu tem. Deve ser maluco.

Levantou as sobrancelhas e os ombros e então relaxou. Abriu o chapéu de chuva, estendeu devagar um saco de plástico para o traseiro e sentou-se de frente para o homem. Tinha a cabeça enfiada no peito.

Se calhar adormeceu. Nunca vi um gajo a adormecer com um vendaval assim, mas também não tenho andado à procura. Tirou uma banana da mochila e pôs-se a comer. Mais um dia e tava boa. Caraças. Isto de não ter citrinos em casa… é para não ser estúpido.

Trincou, mordiscou e saboreou. Noutro dia qualquer teria mastigado de boca aberta, mas hoje tinha gente ao pé dele e nunca se sabe. Mostrar os dentes é um investimento emocional muito grande.

Levantou-se do banco, pegou no saco de plástico e levou a casca até ao caixote. Atirou-a certo para o cesto e viu-a tombar como um polvo arremessado numa peixaria. Escarrou para o chão. Depois deu meia volta e tornou a sentar-se no sítio dantes. Continuava a chover a potes.

Ao menos que não teja morto, caramba!

Esperou uns minutos e nada. O homem não se mexia. Permanecia ali, cabisbaixo. Cabisbaixo como quem traz a cabeça baixa, não como quem matuta de cabeça baixa. Há uma diferença. Se calhar até estava acordado, mas não parecia. Qualquer coisa ali…

Sorte malvada! Levantou-se outra vez e fechou o guarda chuva. Agarrou o homem pelo ombro e agitou-o. Ouça lá, ó amigo! E ir pra casa, não? Amigo!

A custo o outro foi despertando. E bem que lhe custou. Há cabeças duras e cabeças pesadas. Há uma diferença.

Quê?

Casa, berrou-lhe. Vá pra casa. Nem chapéu tem, é maluco?

Maluco? Eu vivo aqui.

Franziu a testa novamente. Mais do que da primeira vez até. Vive aqui. Neste banco do jardim.

Isso.

Aqui é que tá uma coisa mal amanhada, não acha?

Como assim?

Como assim, como assim? Não vê que tá a chover?

Isto passa.

É maluco.

Hein?

Nada. Olhe lá, enquanto não passa não pode ir para outro sítio?

Porquê?

Queria tar sossegado.

Eu vivo aqui. E você é que me acordou.

Deixe-se lá disso agora. E se eu lhe desse umas moedas?

Eu tenho dinheiro.

Raisparta ao homem! Voltou para o banco, pousou os cotovelos nas pernas e a cabeça nas mãos e soltou um suspiro. Nem abriu o chapéu de chuva. Nem sequer estendeu devagar o saco de plástico para o traseiro. Esqueceu-se de pegar nele quando se levantou e ficou voando com o vendaval.

Ouça lá, porque é que veio para aqui com um dia destes? É que nunca o vi antes e eu conheço todas as caras que por aqui passam.

Queria tar sossegado, já lhe disse.

Sossegue então. Não vou incomodá-lo.

Já incomodou.

Eu tava a dormir.

Ergueu a cabeça e falou assim: você tava cá. O problema é esse. Podia tar a dormir, como podia tar acordado. Há sempre gente em todo o sítio. Eu vim cá a achar que não havia ninguém e enganei-me. Isso incomoda-me.

Desculpe lá qualquer coisa!

Ele continuou como se não o tivesse ouvido. Mania de estarem em todo o lado. Ora estão vivos, ora morrem, mas nunca desaparecem. E todos os dias há mais. Fez uma pausa, olhou para o céu e gritou: agora até dormem à chuva, merda pá evolução!

 

Aos poucos foi parando de chover. Os homens ficaram-se fitando, cada um no seu banco de jardim. Um muito assustado, o outro enfastiado. Uma hora depois, o sol rompeu por entre as nuvens e os carros tudo começavam a fazer tremer.

Meio a medo, o homem abriu a boca para falar com o outro, mas foi interrompido.

Deixe-se lá disso agora. Tá sol e vem aí gente. Tenho mais que fazer. Deixou cair a cabeça por entre pernas antes de se levantar. Depois virou costas e foi-se embora por onde as poças eram maiores.

 

Loures, 17. May. 2017.
Nuno M. Monteiro Ramos

Nothing To Sneeze At

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A ride.

A young man landed and watched the world turn but he remained still. Very still, except for his hair and his beard. They both swinged wildly as the world went round. They got in his face and up his nose and the young man sneezed a lot. It’s hard to stay still when you sneeze.

The peoples and the animals and the plants got very upset. The world got noisy and wet and dirty and they just wanted it to go round. Maybe the spiders can trap him in a web, they said. So a million little spiders grabbed onto his hair and many millions of little legs started working there. But many millions of little legs make for a very itchy head and the young man’s hands started working there. His fingers scratched violently as the world went round. It looks as if it will snow forever.

What about the ants, they said. They could eat him very fast. So a million little ants climbed onto his head and two million little jaws started biting there. But two million little jaws make for a very angry man and the young man’s hands started swatting them. He stepped on the ants as the world went round. It looks as if the earth will quake forever.

They said: the wasps will do. They’ll sting him until there’s nothing he can do. So a million little wasps flew onto his head and a million little stingers started striking there. But a million little stingers make for a very gloomy man and the young man’s tears started drowning them. His tears dropped hard as the world went round. Now this wave will travel forever.

And so it was with many a beast and creature of the world until only the peoples remained. We’ll use our swords and take his head. That will teach him some manners, they said. So a million little men marched onto his head and a million little swords shone from up there. But a million little men make for a very serious man and the young man’s head started thinking then. He dried his tears as the world went round but their cries will echo forever.

 

The young man stood up and watched the world turn and he found himself alone. He remained very still except for his hair and his beard. They both swinged wildly as the world went round when he distinctly heard it pound. It got to his head and down his throat and it stayed there forever. It’s hard to stay still when it pounds.

 

Martim Branco, 16. April. 2017.
Nuno M. Monteiro Ramos